Devaneios Artísticos


 Há 100 anos nascia Rubem Braga, o homem que inventou a crônica

 

Ele foi o mestre absoluto da crônica, um gênero considerado menor em relação ao poema, ao conto e ao romance. O próprio Rubem Braga dizia: “Não sou de inventar coisas, mas de contá-las. Seria preciso dar-lhes um sentido, mas não encontro nenhum. As coisas, em geral, não têm sentido algum.” Em outra ocasião, disse: “O cronista de jornal é como um cigano que toda noite arma sua tenda e pela manhã a desmancha e vai.” Afirmou também: “Imprudente ofício é esse, de viver em voz alta.” E, a um repórter insistente, deu essa definição zen: “Ora, se não é aguda, é crônica.”
Aguda foi a vida do cronista. Nascido em Cachoeiro de Itapemirim (ES), em 12 de janeiro de 1913, publicou textos avulsos no jornal da família, mas sua carreira começou de fato em Belo Horizonte, aos 19 anos. Hostilizado pela redação ao herdar o posto do irmão, Newton, nos Associados de Minas, foi escalado por troça para cobrir uma exposição de cães. Fez um texto surpreendente, que lhe valeu um convite para escrever crônicas. Começava aí a carreira do “Sabiá da Crônica” (Sérgio Porto). Mas Rubem teve uma carreira movimentada como repórter: foi até correspondente de guerra, na Revolução Constitucionalista de 1932 e na campanha da FEB na Itália durante a Segunda Guerra. Em 1952, andou pelo Paraná, com Arnaldo Pedroso d’Horta, fazendo reportagens sobre o progresso do estado em Dois Repórteres no Paraná, (leia mais nesta página). Em 25 de janeiro de 1958, publica na revista Manchete a crônica considerada sua obra-prima, Ai de ti Copacabana, escandida em sombrias profecias bíblicas:
“1.AI DE TI, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.
2. Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite.”
A carreira sentimental de Rubem Braga também começou cedo. Aos 19 anos conhece em BH Zora Seljan, descendente de croatas, jovem avançada e comunista. Casam-se em 1936 e vão morar no Rio, numa pensão do Catete, onde convivem com o casal Graciliano Ramos. A união com Zora lhe dá o único filho, Roberto, e dura até 1948. Nos anos 1950, quando ela casa com o escritor Antônio Olinto, Rubem comenta: “Pode ter melhorado de marido, mas, de estilo, nem tanto...”
A partir de 1963, o andarilho finca raízes num apartamento de último andar em Ipanema, onde se apropria da cobertura e constrói nela um jardim suspenso com hortas e pomares. Quando o síndico pergunta como receberia os outros condôminos na cobertura, responde: “À bala!” Afixa na entrada uma placa de cerâmica: “Aqui vive um solteiro feliz.” Mas o “Velho Braga” – como se autodenominou – nunca foi imune a paixões. Em 1947, em Paris, cai pela belíssima Tônia Carrero, “amor não tão platônico quanto fazia crer a discrição de ambos,” segundo o biógrafo Marco Antônio de Carvalho (Rubem Braga, um Cigano Fazendeiro do Ar, Globo, 2007.) Sua grande paixão foi por Bluma, mulher de Samuel Wainer, ainda nos anos 1930. Um caso sem final feliz: ela deixa o marido, engravida de Rubem, ele foge da raia, ela decide abortar. Seriam de Bluma, morta em 1951, as feições da escultura, encomendada a Alfredo Ceschiatti, que dominava a cobertura de Ipanema.
Rubem tinha um sexto sentido para as coisas do amor. Um dia apresentou num restaurante: “Vinicius, aqui Lila Bôscoli. Lila, aqui Vinicius de Moraes. E seja o que Deus quiser.” Vinicius deixou a mulher, Tati, e casou com Lila.
Com o passar dos anos, Rubem foi ficando mais difícil. “Casmurro anfitrião.” (Otto Lara Resende). “Parecia estar sempre de mau humor; e muitas vezes estava mesmo.” (Cláudio Mello e Souza). “Ele nunca deixou de ser um ‘mocorongo’, como se dizia no Espírito Santo, o que significa alguém sem jeito, meio desengonçado, quase caipira, fora de moda.” (Danuza Leão). “Se eu conhecesse outro sujeito igual a mim, nossas relações nunca chegariam a ser grande coisa.” (Rubem Braga).
Na segunda-feira, 17 de dezembro de 1990, aos 76 anos, Rubem Braga reuniu os amigos para uma despedida na cobertura de Ipanema. Morreu quarta-feira à noite num quarto do Hospital Samaritano, sozinho, como desejara e pedira. A causa da morte foi uma parada respiratória em consequência de um câncer na laringe que ele preferiu não operar. Pouco antes, decidindo ser cremado, foi tratar dos detalhes no Cemitério de Vila Alpina, em São Paulo. “Mas onde está o cadáver?” perguntou o funcionário. “O cadáver sou eu,” disse Rubem.
Vinte anos depois de morto, Rubem Braga batizou um “complexo”. Não, nada na área da psicanálise. O Complexo Rubem Braga é composto por duas torres com elevadores panorâmicos que ligam a estação de metrô da praça General Osório ao Morro do Cantagalo. Veio facilitar a vida dos moradores da favela e também incrementar a prática dos “favela tours”. No topo das torres, dois mirantes oferecem uma vista privilegiada de toda a Zona Sul carioca, com uma visão 360º do bairro de Ipanema – logo abaixo dá para ver a lendária cobertura verde do “Velho Braga.” Daria até assunto para uma crônica...
fonte: gazeta do povo/caderno g

 



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“fazer arte a partir do corpo”

 

A tradição – ou o senso comum – recomendam que a melhor maneira de uma criança iniciar o contato com a dança é por meio do balé clássico e, quanto mais cedo, melhor. Por isso, é comum encontrar mães a vestir suas meninas de três anos de idade com collant cor-de-rosa e coque nos cabelos ainda ralos para as aulas de baby class. Se a escolha das meninas (ou meninos) for outro gênero de dança, pouco importa, já que muitos ainda acreditam ser o balé a base para todas as outras danças. Esta tentativa de fabricar bailarinas, contudo, tem pouca ligação com o que os pesquisadores do ensino de dança defendem para a experiência inicial com esta expressão artística.

A diretora do Vila Arte Espaço de Dança, em Curitiba, Cintia Napoli, reconhece que a técnica clássica desperta mecanismos fantásticos do corpo, mas diz que se um bailarino escolher outro gênero e desenvolver uma boa base, a relação com a dança evoluirá satisfatoriamente. Apesar de ter tido as primeiras aulas aos cinco anos, Cintia considera que o balé não é uma técnica para começar muito cedo, porque as crianças tomam como única perspectiva o que veem as bailarinas adultas fazendo. “A criança não desenvolve a criatividade, nunca passa pela experiência do próprio corpo, não faz ideia dos próprios desejos, não tem autonomia.”
Encostar a perna na orelha, exibir um colo de pé bonito e girar muitas piruetas com perfeição são parte do imaginário de jovens aprendizes de balé. Os exercícios repetitivos e os métodos desenvolvidos ao longo de séculos ajudam a aproximação com esta técnica. Mas formar um bailarino clássico que execute os passos com perfeição, ou pelo menos perto disso, requer aptidão anatômica. É preciso ter pés, joelhos, coluna, articulações, enfim, o corpo todo naturalmente preparado para o perfeito en-dehor (a posição em que os bailarinos precisam trabalhar a maior parte do tempo, com pés, joelhos e quadris virados para fora).
Um dos entraves para o desenvolvimento de um bailarino é esta perspectiva, como se o balé fosse a única linguagem. Como se só fosse dança o que a bailarina longilínea executa nas pontas dos pés. “Quando a menina chega à adolescência e se descobre uma bailarina que não é ideal para aquilo, tem a sensação de que a dança bateu a porta na cara dela”, diz Cintia.
A professora de dança Mábile Borsatto chama atenção para o fato de que, quando não é trabalhado com responsabilidade, o balé pode causar danos físicos, como traumas e deformidades. Ela entende a dança como o estudo do corpo e sua relação com o espaço e o tempo. Mábile acredita que nas aulas de dança contemporânea as crianças têm mais estímulo e liberdade para desenvolver criatividade e capacidade de expressão.

Diversidade

Pensar no ensino de dança, hoje, exige um olhar para a realidade contemporânea. Assim como a sociedade, a dança também abarca uma diversidade muito grande. O bailarino precisa ser um questionador, um investigador, defende a professora do curso de Dança da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e graduada na Faculdade de Artes do Paraná (FAP), Luciana Paludo.
“O balé ajuda em determinadas modalidades, mas não é só isso. É um mito que sem ele não haja dança de qualidade ”, diz. Para ela, com a evolução do ensino, será possível iniciar os pequenos aprendizes com um estudo não direcionado para uma técnica específica, mas para “fazer arte a partir do corpo”. Depois, se a pessoa quiser optar por um gênero, já terá um bom conhecimento.
O objetivo das aulas também precisa ser colocado em questão: se é para formar bailarinos profissionais ou para que a criança tenha uma experiência com dança. Luciana conta que procurou apresentar a dança aos três filhos da mesma maneira que ensina, mostrando as possibilidades e dando opção de escolha. Hoje, uma de suas filhas faz faculdade de dança.
Antes de buscar uma academia em que um ou outro gênero seja escolhido, a escola regular pode oferecer o espaço para o primeiro contato com a dança. Para o coordenador do curso de Dança da FAP, Giancarlo Martins, este seria o ambiente mais interessante. “É importante fortalecer o ensino da dança como área de conhecimento na escola, enquanto atividade artística, dada por um profissional licenciado.” A partir da primeira aproximação, o estudante poderia ter conhecimento para então escolher um gênero ao qual se dedicar.

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 Arte transforma você

Uma pintura pode ser sentida como o amor ou o luto? Pode mudar a vida de alguém? Pode mudar o mundo? A julgar pelos artistas, críticos e estudantes ouvidos neste Caderno G Ideias, as respostas são: sim, sim e sim. A arte resistiu a uma quantidade atordoante de mudanças (o cinema foi uma delas, para ficar num exemplo) e dá sinais de que tem poderes para resistir a outras mais. Além de avaliar o que a arte pode fazer por você, os textos a seguir mostram o que você pode fazer pela arte: buscar entender o que o agrada e o que não o interessa, procurar referências antes de ir a um museu e, mais que tudo, tentar entrar numa exposição com a guarda baixada, pronto para levar um direto de direita.

O esqueleto de um cubo de ferro ocupa um ambiente de paredes pretas na Casa Andrade Muricy. Objetos de metal parecem sair dele, ou entrar nele. É uma explosão, com fragmentos voando para todo lado, ou são nuvens – sendo a leveza que sugerem uma proeza por se tratar de traquitanas com mais de 30 quilos –, ou são morcegos que voam para fora de uma caverna.
A obra de José Antonio de Lima é parte da exposição (im)permanências, que o museu exibiu até o fim do mês passado, e pode fazer você se sentir bem. Ou mal.
Você também pode não sentir nada e ainda assim se perguntar: “Por quê?”. Por que você não sente nada? A resposta para essa questão sendo o ponto de partida para descobrir que tipo de arte faz a sua cabeça.
“O quanto a arte é poderosa?”, pergunta o historiador Simon Schama na série Power of Art, produzida pela BBC em 2006 e baseada no livro de mesmo nome, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. “Ela pode ser sentida como o amor ou o luto? Pode mudar sua vida? Pode mudar o mundo?”
Schama procurou respostas escrevendo um livrão ilustrado de 500 páginas, além de fazer o roteiro e apresentar os oito episódios da minissérie ainda inédita no Brasil, mas disponível no YouTube sem legendas. E ele encontra argumentos muito bons, com a ajuda de Caravaggio, Picasso, Rothko e outros cinco gênios da pintura.
“A crença apaixonada de Van Gogh era que as pessoas não veriam apenas os seus quadros, mas sentiriam a urgência da vida neles. Que pela força do seu pincel e pelo deslumbre das cores, elas sentiriam aqueles campos, aquelas faces, aquelas flores. O que, de outra maneira, jamais seria possível. Sua arte assumiria o que antes pertencera à religião: apreciação do dom da vida como consolo pela nossa mortalidade”, diz Schama, num texto apaixonado, durante o capítulo dedicado a Vincent van Gogh (1853-1890), pronunciando o “gh” do sobrenome do artista como um erre gutural.
“Trigal com Corvos” tinha efeito incontestável há 120 anos, mas qual é o impacto de um quadro como esse hoje?
“O poder da arte é indiscutível”, diz Benedito Costa, professor e crítico de arte. “Tão grande que resiste e resistiu a outras manifestações culturais instigantes, como o cinema, por exemplo.”
Todos os citados neste texto falaram da capacidade que a arte tem de transformar quem é exposta a ela. Poucos adjetivos serão tão impactantes quanto este: transformadora. É admitir que uma pintura pode, de fato, mudar alguém.
“Creio que ela tenha não apenas o poder de uma representação do eu e do outro, como o poder de transformação do eu e do outro”, diz Costa.
O artista plástico José Antonio de Lima acompanhou a reportagem numa visita à sua exposição. A certa altura, uma professora quis cumprimentá-lo, agradecendo a permissão dada para que crianças cegas tocassem as esculturas – umas feitas de metal, outras, de tecido. Sentir as obras com as mãos torna mais fácil para imaginar formatos e texturas.
Quando alguém comenta a sua obra, Lima ouve com atenção. Ele realmente quer saber o que os outros pensam, diferente do que sugere a visão típica do artista refratário à opinião do público – pense em Nick Nolte vivendo o pintor Lionel Dobie no episódio “Lições de Vida”, no filme Contos de Nova York (1989). Um sujeito capaz de hostilizar até quem compra seus quadros.
Lima não. As interpretações parecem fasciná-lo. “É mesmo?”, diz ele quando alguém aponta para uma pintura dizendo: “Esta é minha favorita”.
Aline de Lima, estudante de Artes Visuais na Universidade Tuiuti, trabalha como guia na Andrade Muricy e orientou uma turma de crianças com deficiência visual, observando como elas reagiam intensamente às obras. Quando tocam uma peça de metal, se ela é pontuda, elas chegam a se encolher e recuar. “E não querem mais tocá-la”, diz Aline.
Nem toda obra é transformadora. Algumas, para usar um termo dito por Lima, são “lúdicas”. De acordo com Costa, “a arte também pode ser apenas um objeto de contemplação. Simplesmente”.
Mariana Leme, artista gráfica com trabalhos publicados em revistas como Bravo! e Arte e Letra: Estórias, põe em questão o fato de se sentir bem ou mal diante de uma obra. “Não acho que essa seja uma questão importante”, diz. “A arte nos permite entender melhor a vida, as coisas, o que quer que seja. E talvez ‘entender’ não seja um bom termo, mas refletir sobre uma época, o papel social de cada um, a questão do trabalho, do trabalho artesanal. Questionar, enfim. Verificar barreiras, desnudar conflitos e ambiguidades mascaradas numa banalização grotesca cotidiana de imagens, pensamentos e (por que não?) formas de vida.”
Mariana deu essa resposta de encerrar qualquer discussão por e-mail. Arte contra o entorpecimento, contra a indiferença. Pessoalmente, ela expõe suas ideias contundentes com uma voz suave e um pouquinho grave. É um contraste. Desenha belissimamente, mas não pensa em seguir carreira como artista. Prefere a crítica.
“A arte é um espaço privilegiado de reflexão, que pode ter caráter estético/plástico ou político, ou histórico – na verdade, as obras de arte que se realizam apresentam todas essas facetas juntas”, diz Mariana.
Para o artista plástico Miguel Nicolau Abib Neto, professor do Centro Europeu, nem todo mundo está sujeito ao poder da arte. “Ele só tem efeito sobre certos indivíduos. Acredito que a arte aciona um mecanismo preexistente que as pessoas carregam dentro de si, seja ele consciente ou inconsciente”, diz.
Ele defende a ideia de que, para apreciar arte, é preciso ser criativo em alguma medida. A escritora Edith Wharton (1862-1937) disse coisa parecida quando escreveu um texto falando que todo mundo pode aprender a ler, mas nem todo mundo tem talento para ler ficção.
A obra depende muito do espectador, afirmou o semiólogo italiano Umberto Eco décadas atrás.
“A arte abre portas: ela permite a injeção de significados em algo que não tem sentido para outras pessoas e é por isso que as pessoas percebem a arte de maneiras diferentes e em camadas diferentes”, diz Abib Neto.
E o artista termina: “É preciso tentar entender por que você não gostou de uma determinada obra de arte. As pessoas não pensam nisso, mas você pode aprender muito sobre o tipo de arte que gosta observando arte que você não gosta, entendendo o que, exatamente, é que o incomoda. Nesse sentido, nenhuma exposição é perda de tempo: você sempre pode aprender alguma coisa sobre o que o interessa.”
O espírito da coisa
Em que espírito alguém deve ir ao museu? Ver uma exposição é para fazer pensar, é escapismo, é entretenimento? Existe algo numa ida ao museu que se compare a uma sessão de cinema com pipoca? Ou tem mais a ver com teatro?
Quando observou crianças passeando pelo museu, o artista plástico José Antonio de Lima percebeu que elas tinham a resposta para algumas dessas perguntas.
As crianças embarcam em qualquer tipo de experiência, têm menos resistência ao que está sendo mostrado e são crianças, enfim. Elas sabem muito pouco sobre tudo e reagem mais instintivamente. “Elas são curiosas e não têm tantos preconceitos como os adultos. Carregam menos bagagem”, diz Lima.
“Talvez a única atitude possível diante da obra de arte seja a de estar desarmado”, diz a artista gráfica Mariana Leme. “Qual o problema de questionar a validade artística das coisas? Ou qualquer outra validade? E a validade de todas as outras imagens/objetos da vida cotidiana? A arte pode ser o lugar da experiência enriquecedora, ‘Os Bichos’, da Lygia Clark, são um ótimo exemplo. Sem contar que as crianças adoram! Abaixo a solenidade, que estamos todos sem saber direito para onde ir.”
A falta de um rumo é estimulante às vezes ou, em outras, parece um muro entre o que foi feito e o público. Quem não é iniciado tem dificuldade de saber como reagir a obras bizarras ou até mesmo às obras-primas.
“Hordas de turistas visitam o Louvre todos os dias e ficam em pé diante de um Rembrandt, mas não sentem nada e caminham para a pintura ao lado”, diz o artista plástico Miguel Nicolau Abib Neto. “Ensinaram a eles que Rembrandt é um mestre, mas eles não conseguem entender por que e, às vezes, até gostariam de entender, mas não têm ferramentas adequadas para apreciar o trabalho. É por isso que as lojas dos museus estão sempre lotadas. Mais importante do que apreender algo abstrato acerca de uma determinada obra, é possuir algum tipo de objeto que eles imaginam ser capaz de validar, de materializar a visita ao museu.”
No Museu Oscar Niemeyer, pelo movimento que se vê nos fins de semana, é razoável supor que o Bosque do Papa atrai mais público do que a exposição dedicada a Poty Lazzarotto (1924-1998). Mas não precisava ser assim.
“Creio que possamos ir ao museu para passear, para emocionarmo-nos, para escapar, para sorrir ou chorar”, resume Benedito Costa, professor e crítico de arte. “Eu nunca vou a uma exposição, mostra, vernissage ou afim com muita expectativa. Espero que o objeto ou objetos que verei me emocione(m). No entanto, há exposições muito específicas, que exigem certo preparo, principalmente para quem não conhece arte. Isso deve ser levado em conta para qualquer exposição. Por isso, a importância de textos informativos, de guias, de esclarecimentos. Quando não conheço o trabalho a ser apreciado, leio sobre ele, procuro conhecer mais, antes de enfrentá-lo.”

 

 

 

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Tudo ao mesmo tempo na Cidade Eterna

 

Vamos aos fatos: Woody Allen tem feito um longa-metragem por ano desde 1969. Nem todos os seus filmes são memoráveis, obras-primas, mas basta uma atenta revisão de sua obra, para chegar à inevitável conclusão de que poucos realizadores vivos podem se orgulhar de ter construído uma filmografia tão sólida e blindada contra os efeitos do tempo. Portanto, o fato de "Para Roma, com Amor", que chega hoje aos cinemas brasileiros, não ser exatamente genial - como seu antecessor, o premiado Meia-noite em Paris-, não é um pecado mortal. Longe disso! Até porque há vários bons motivos para assisti-lo.
Longinquamente inspirado por Decamerão, clássico de Giovanni Boccaccio (1313-1375) - romance em que várias histórias se entrecruzam na Itália medieval-, "Para Roma, com Amor" reúne cinco tramas. Elas até atravessam os caminhos umas das outras, tomando a Cidade Eterna como cenário, mas são independentes. Nem todas funcionam, é preciso ir logo dizendo.
Allen, que retorna à cena como ator em um filme seu pela primeira vez desde Scoop – O Grande Furo (2006), estrela a melhor delas. Ele é Jerry, um diretor de óperas inseguro e em crise, que vai a Roma com a mulher (a australiana Judy Davis, de Maridos e Esposas) para conhecer o noivo da filha Hayley (Alison Pill, de Meia-noite em Paris), um romano boa pinta chamado Michelangelo (Flavio Parenti), cujo nome o futuro sogro faz questão de pronunciar errado.
A má vontade de Jerry se dissipa quando ele descobre que o pai de Michelangelo, vivido pelo tenor Fabio Ar­­miliato, é, potencialmente, um diamante bruto do canto lírico. Mas tem uma limitação: o homem, que ganha a vida como coveiro, só consegue cantar bem quando está debaixo do chuveiro.
Em outra trama importante, Jesse Eisenberg, o astro de A Rede Social interpreta Jack, um norte-americano aspirante a arquiteto que vive em Roma com a namorada Sally (Greta Gerwig), que comete o erro de convidar uma amiga, Monica (Ellen Page, de Juno) para visitá-la. Acredita que o rapaz não tem nem terá olhos para outra mulher. Ledo engano.
Jack é uma espécie de álter ego mais jovem de Allen, e encarna a persona neurótica, verborrágica e intelectual que o diretor já viveu em muitos dos seus filmes. O que, para alguns, pode ser um problema, já que, aos 76 anos, Allen não consegue fazer com que o personagem soe como alguém de sua idade. O mesmo vale para Monica, com quem Jack tem conversas que fazem lembrar os diálogos cheios de referências entre Allen e Diane Keaton em Noi­­vo Neurótico e Noiva Nervosa (1977) e Manhattan (1979). Mas será isso um grave defeito?
Alec Baldwin, como o pai um tanto surreal de Jack; Penélope Cruz, no papel da prostituta Anna, que se envolve em uma hilária comédia de erros; e Roberto Benigni, encarnando mais um sujeito histriônico em sua galeria de tipos, desta vez perseguido por paparazzi graças a uma fama inesperada, compõem um mosaico de tipos humanos que poucos, como Allen, são capazes de tirar da manga. Nada para entrar para a história do cinema, mas ainda assim acima de média. GGG
Classificações: GGGGG Excelente. GGGG Muito bom. GGG Bom. GG Regular. G Fraco. 1/2 Intermediário. N/A Não avaliado.
 fonte: www.gazetadopovo.com.br/cadernog

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Pequena reflexão sobre a arte do retrato


Há dois séculos Daguerre e Niépce, na França, e Hercule Florence, no Brasil, descobriam uma maneira de gravar as emanações luminosas dos objetos em uma chapa metálica. Surgia assim a fotografia.
Em seu início a fotografia se interessou pelas paisagens e pelas naturezas mortas, pois era impossível tirar retratos devido ao longo tempo de exposição, oito horas em média, exigido pelas primeiras chapas fotossensíveis. Neste período, as imagens fotográficas eram um mar de objetos inanimados e de paisagens onde as sombras se projetavam estranhamente para ambos os lados. Muitos dos primeiros fotógrafos eram pintores que, ao perceberem que a fotografia roubaria grande parte da clientela, abandonaram o ofício da pintura.
O próprio Daguerre era pintor. Foi natural que, na carência inicial de uma linguagem própria, a fotografia emprestasse o estatuto estético já consolidado da arte pictórica. Tanto que muitas imagens deste período inicial carregavam os mesmos elementos constitutivos das naturezas mortas. Frutas cuidadosamente arranjadas sobre uma bela toalha de mesa acompanhadas por belas jarras e garrafas formavam o clássico cenário de que a fotografia se apropriaria. Porém, as fotografias de naturezas mortas revelavam a precisão cirúrgica do corte fotográfico e sua tremenda vocação para a verdade.
Assim, as primeiras décadas do invento foram dedicadas a motivos inanimados que aparentavam velhos decalques de conhecidas pinturas. Somente em meados do século 19, com o avanço tecnológico das lentes e do suporte sensível à luz, é que o tempo de exposição caiu para a casa dos minutos, possibilitando o registro de retratos fotográficos.
Surgem grandes estúdios fotográficos que ajudam a transformar a fotografia num dos mais lucrativos negócios da França do século 19. Porém, o tempo de exposição à luz ainda exigia inevitáveis poses, já que os retratados necessitavam ficar absolutamente estáticos por minutos. O que explica, em parte, a cara sisuda dos retratados desta época. Não existiam sequer esboços de sorrisos, pois qualquer movimento causaria uma foto tremida e prejuízo financeiro para o retratado.
O constante avanço da tecnologia fotográfica ofereceu aos fotógrafos do século 20 um cenário completamente diverso. Filmes de alta sensibilidade, flashes, câmeras de pequeno formato e a capacidade de captura instantânea da imagem mudaram por completo o estatuto fotográfico do retrato. Três grandes áreas se destacaram na criação desta nova estética: o fotodocumentarismo, a fotografia de moda e o fotojornalismo das grandes revistas ilustradas.
A linguagem fotográfica amadurecia rapidamente e se integrava cada vez mais no espírito modernista do novo século.
A fotografia é um ato solitário, mas sua reflexão se dá na companhia invisível de um sem número de fotógrafos como Henri Cartier-Bresson e seu conceito de instante decisivo, August Sander e seu belo inventário do povo alemão, Richard Avedon e a elegância simples de seus ensaios, Diane Arbus e a constrangedora força do estranhamento, Flor Garduño e seu delicado olhar feminino ou mesmo o visceral Miguel Rio Branco e seus rubros retratos de um mundo cão.
Para ser um verdadeiro retratista é necessário ultrapassar o mero registro para, de mãos dadas com a tradição de 150 anos de retratos fotográficos, mirar a carne e atingir a alma. Tirar um retrato não é, e nunca será, apenas um apertar de botão. Um grande retratista conhece o estatuto invisível da fotografia, sua história e a dimensão poética de dar ao outro uma imagem perene da frágil condição humana em relação ao tempo. O retrato imobiliza aquilo que o tempo nos rouba. A fotografia funciona como um espelho com memória que insiste mostrar ao retratado o que um dia ele julgou ser. A dimensão do poderoso ato de se retratar reside na capacidade do obturador cortar uma pequena lâmina de realidade, um pequeno fragmento capaz de revelar que o fotógrafo busca sua própria identidade por meio da identidade alheia.
Osvaldo Santos Lima, é mestre em comunicação e linguagens, professor de fotografia da Universidade Federal do Paraná e diretor-fundador do Omicron, escola e centro de fotografia.

fonte: www.gazetadopovo.com.br/cadernog
  

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O perfil do escritor sem rosto

 

No próximo dia 8 de maio, um dos maiores nomes da literatura americana completou 75 anos. Thomas Pynchon, nascido em 1937 publicou seu primeiro livro, intitulado V., na década de 60, quando tinha 25 anos, e desde então lançou outros cinco romances e uma coletânea de contos. A produção pode parecer pequena, mas não tanto se considerarmos o absurdo volume de seus livros: Mason & Dixon, publicado em 1997, tem 848 páginas na edição brasileira; O Arco-Íris da Gravidade, vencedor do National Book Award na categoria ficção em 1974, tem 792; e Contra o Dia, romance de 2006 recentemente editado pela primeira vez no Brasil, é composto de inacreditáveis 1.088 páginas. Os assuntos são os mais variados: desde a divisão de terras nos Estados Unidos do século 17 até a psicodelia das bandas de surf music dos anos 70, passando por jovens aventureiros que cruzam o mundo em um dirigível realizando missões. A temática rica e o estilo literário excepcional colocaram Pynchon num panteão de honra entre os escritores pós-modernos, canonizado pelo crítico literário Harold Bloom como um dos quatro autores americanos fundamentais do século 20, junto com Cormac McCarthy, Don DeLillo e Philip Roth.
Pynchon, entretanto, comumente recebe a maior parte de sua atenção editorial e midiática por sua maior peculiaridade, referente à sua persona. Recluso e anônimo, negando toda oferta de entrevista e oportunidade de fotografia, e comunicando-se com algumas poucas pessoas apenas por fax (cujo papel dura pouco e cuja interceptação é praticamente impossível), pouco se sabe sobre sua residência e sua vida pessoal, ainda que se permita raras aparições, como a gravação de sua voz em um episódio de Os Simpsons e de um teaser de seu mais novo romance, Vício Inerente, publicado no Brasil em 2010.
Conhecem-se apenas alguns fatos. Nascido em Long Island, o escritor sem rosto estudou engenharia aeronáutica na Universidade de Cornell, deixando o curso ao ser convocado pela Marinha. Nas Forças Armadas tirou as fotos que até hoje são divulgadas como as únicas do autor (a Marinha forneceu outros materiais para seus livros). Quando voltou do serviço militar, trocou seus estudos para inglês em Cornell e teve aulas com o escritor Vladimir Nabokov, autor de Lolita. Após um curto período trabalhando com escrita técnica, entrou para o mundo da ficção e desapareceu por completo.
Se por um lado faltam informações a seu respeito, por outro sobram especulações e teorias levemente delirantes sobre Thomas Pynchon. A mais inusitada afirma que o escritor seria o novo nome adotado por Jim Morrison (1943-1971), vocalista da banda californiana The Doors, vivo e oculto sob outra identidade — afinal, ambos parecem ter os mesmos interesses em física, ocultismo, matemática e cultura pop. Outros afirmam ser Bob Dylan ou ainda o terrorista Unabomber o homem por trás da figura misteriosa de Pynchon, e por aí vai.
Silêncio midiático
O culto a sua personalidade acaba sendo um magnífico diferencial na literatura contemporânea, mesmo entre notórios reclusos, como J. D. Salinger, de O Apanhador no Campo de Centeio, J. M. Coetzee, prêmio Nobel sul-africano, e os nacionais Dalton Trevisan e Rubem Fonseca. Este último, aliás, é amigo de Pynchon. Para Fonseca, ele escreveu o prefácio da edição americana da coletânea de contos O Cobrador. Não é de todo raro encontrar nos Estados Unidos e em outros países grupos de leitores devotos de Pynchon, reunidos para dissecar cada linha da obra do escritor e verificar seus mecanismos ocultos.
O editor e escritor gaúcho Antônio Xerxenesky é um desses leitores aficionados pela obra do escritor, já tendo lido todos os seus livros, incluindo a coletânea de contos Slow Learner, cuja introdução contém as poucas informações oficiais disponíveis sobre sua infância e juventude. Para Xerxenesky, Pynchon ganha pouco se expondo: “A obra dele ganha muito com esse silêncio midiático, com referências obscuras, e perderia a graça se ele precisasse vir a público toda vez se explicar. Certamente, não haveriam leitores reunindo-se ao redor de seus livros se fosse assim”. Embora sua figura anônima seja fascinante, o editor afirma que ela não se sustentaria sem a qualidade excepcional do texto. “A gente fica curioso para descobrir quem é a mente doentia que criou esses universos tão fenomenais, e não podemos, e a graça está nisso.”
O editor de Pynchon no Brasil, André Conti, da Companhia das Letras, nunca entrou em contato com o escritor, tratando tudo com seus tradutores (leia mais na matéria ao lado) e agentes. Para ele, a obscuridade da persona do autor de Contra o Dia é condizente com o universo criado por ele. “Se há algo em comum às obras do Pynchon é o fato de tudo ser permeado por um clima de desconfiança, paranoia sobre entidades conspiratórias. E nada melhor para falar sobre isso do que um autor recluso, igualmente desconfiado. É como se ele vivesse dentro daquilo, e os leitores se empolgam em suas vocações detetivescas para tentar descobrir não só significados ocultos em seus livros mas também qualquer informação sobre sua figura”. Sobre sua reclsuão, Conti conclui com um conhecido clichê literário que não poderia ser melhor aplicado a Pynchon: “O livro precisa falar por si só”.

 


 

 

 

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Um século e meio de Ernesto Nazareth

 

 

No dia 20 de março de 2013, o Brasil e o mundo irão comemorar 150 anos de nascimento de um dos precursores do estilo musical genuinamente brasileiro, isto é, o Choro. Estamos falando do pianista e compositor Ernesto Nazareth.  Desde já muita coisa boa está acontecendo no cenário musical – como, por exemplo-, a criação de um site comemorativo a essa data.
Desde março desse ano o Instituto Moreira Salles criou um site comemorativo ao aniversário de um século e meio.
Uma visita inesquecível e inadiável!!!
Por que?
Ernesto Nazareth é considerado um dos precursores do choro ao ajudar a consolidar a leitura brasileira de ritmos como polcas, maxixes e valsas – e, portanto, um eixo importante para compreender as raízes da música do Brasil. O site disponibiliza o acervo completo do compositor com muitas informações complementares a áudios, o que facilita a visita e as pesquisas.
Acessem o link a seguir e,..., “boa viagem!”
http://www.ims.uol.com.br 

 

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Palavras cotidianas em versos espetaculares

 

 

“Desista: não vai dar certo./ O mundo é o mesmo de sempre,/ desejo é uma coisa cega./ Desista, enquanto é tempo.// As mãos não sabem o que pegam,/ os pés vão aonde não sabem./ As cartas estão marcadas: vai dar desgraça na certa.// O mundo é sempre a esmo,/ desejo é uma porta aberta./ Desista, que a vida é incerta./ Ou insista.
Dá no mesmo.”

Além de tradutor de um bando estelar de escritores, Paulo Henriques Britto é um senhor poeta. É impressionante o que ele consegue fazer com palavras tão cotidianas.
O poema transcrito no parágrafo acima faz parte do livro "Formas do Nada" e, aparece aqui na íntegra, porque seria errado citar só um fragmento dele. O mesmo vale para todos os outros. Ainda mais aqueles em que Britto parece edificar uma estrutura que é demolida pelas últimas palavras, transformada por elas.
O desfecho, que ilumina todos os versos anteriores, pode ser sombrio, otimista (algo relutante), ou cético. Mas, é quase sempre surpreendente. Como ao escrever: “Ou insista. Dá no mesmo” em um poema que começa com “Desista: não vai dar certo”.
Ainda que o início e o meio sejam pessimistas, os versos finais admitem a perseverança (“Ou insista”) e, com ela, um fiapo de esperança. Afinal, o desejo é “uma porta aberta” e portas abertas - em geral-, são boas, são convites, representam oportunidades. Ao contrário da negação implícita nas portas fechadas.
Antes de continuar, digo uma coisa. A ideia de ler poesia é, com frequência, cercada por um campo de desafios e dificuldades. Não se lê poesia porque não se “entende” de poesia. Essa desculpa é ruim!!
Entender de poesia pode ajudar a extrair mais de um poema, tanto quanto entender de música pode melhorar a experiência de ouvi-la. No entanto, alguém que seja incapaz de ler uma partitura, ainda assim pode se emocionar com uma composição. Também um leitor, que não entenda de métrica, pode ser fulminado por um poema (situação deste resenhista).
Talvez seja um argumento ingênuo - mas, música e poesia-, são bastante próximas. Isto é, há poesia na primeira e musicalidade na segunda. Escreve Britto: “Todas as soluções são boas,/ menos a que você escolher./ Escolha, sim. (Mesmo que doa,/ dá uma espécie de prazer.)”.
Apesar de escrever difícil quando é o caso (você sabe o que é uma sinérese?), o poder de Britto de usar palavras corriqueiras na construção de um poema extraordinário, tem um pouco a ver com uma fala do dramaturgo Tom Stoppard, sobre como as palavras simples - essas que todo mundo usa o tempo todo-, são as mais espetaculares. Dentro de um determinado contexto, você não precisa de palavras obscuras ou complexas para gerar impacto.
Como exemplo, Stoppard disse invejar o roteiro do filme "O Fugitivo" (de 1993), em que o policial de Tommy Lee Jones persegue o médico vivido por Harrison Ford. Este é acusado de matar a mulher e, ao mesmo tempo em que foge da polícia, tenta encontrar o assassino de fato.
A inveja de Stoppard - ele mesmo explicou-, está baseada numa cena lá pelo fim da história, quando Ford é encurralado pelos policiais e, diante de Jones, ele diz a única coisa que poderia dizer: “Eu não matei minha mulher!”. E Jones responde: “Não faz diferença!". Uma frase simples, que cria uma revolução na história inteira e na cabeça do público. Ford pode não ter matado a mulher, mas depois de tudo o que aconteceu – a fuga, a perseguição, os transtornos das duas –, ele vai ser preso do mesmo jeito. Que se dane! É esse tipo de efeito que têm os poemas de "Formas do Nada".
Britto constrói os versos para chegar a uma frase ou palavra que deixará você sem fôlego, abismado - mas, contente de encontrar em palavras, num livro de capa azul-, sensações e preocupações que julgava indizíveis. Como aqueles instantes muito breves - em que, ocupado com outra coisa-, você tem a sensação de que o mundo faz sentido. “Ou parece! Pelo menos.”
Às vezes, o poeta fala sobre as razões de escrever. E estas, bem poderiam ser as razões de viver. A folha em branco é uma das formas do nada. E ele diz que é preciso rabiscar num caderno, aquilo que talvez jamais venha a ser lido por alguém! “Por quê? Não vem ao caso!”. Afirma Britto.

Serviço: Formas do Nada - Paulo Henriques Britto. Companhia das Letras, 78 págs., R$ 32. Poesia
Fonte: gazeta do povo

 

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Um balanço a caminho do mundo

 

Lançada numa boate de Copacabana, a canção Garota de Ipanema se tornou febre planetária e é a segunda mais tocada da História. No decorrer dessa semana irei postar informações e curiosidades sobre esse ícone da bossa-nova

 

Consta que é a segunda canção mais executada da História, atrás apenas de “Yesterday”, dos Beatles. De acordo com a editora do grupo Universal, que administra a comercialização da música, há mais de 1,5 mil produtos (LPs, CDs, DVDs) com ela. É impossível saber ao certo o número de interpretações gravadas, mas deve ultrapassar 500. Na internet, encontram-se versões em finlandês, estoniano e até esperanto. E a inclusão em filmes, programas de tevê, comerciais e jogos eletrônicos não para — só neste ano, os herdeiros de Tom Jobim e Vinicius de Moraes aprovaram a utilização na série Mad Men, num filme dos irmãos Coen e em campanhas da Nike e da Calvin Klein, entre outras consultas.
A saga de tamanho sucesso começou em 2 de agosto de 1962 numa casa noturna de 6 x 40 metros, com capacidade para 300 pessoas bem próximas umas das outras, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. O empresário Flávio Ramos inaugurou a boate Au Bon Gourmet, antes um restaurante, com a reunião em cena — que jamais se repetiria — da tríade principal da bossa nova. Tom, Vinicius e João Gilberto se apresentaram durante 40 noites, em seis semanas, ao lado do grupo Os Cariocas, do baixista Otávio Bailly e do baterista Milton Banana.
Era a primeira vez que o Itamaraty autorizava o diplomata Vinicius a subir num palco, mas ele não podia receber cachê. Para compensar, tinha direito a levar amigos para vê-lo. Cinco grandes canções foram lançadas naquela temporada: “Samba do Avião”, “Só Danço Samba”, “Samba da Benção”, “O Astronauta” e ela, “Garota de Ipanema”, cuja letra Vinicius escrevera em Petrópolis para a melodia que Tom compusera em seu apartamento na Rua Barão da Torre.
“A música já fazia sucesso quando era cantada. A gente logo percebeu a força e a beleza dela”, recorda Severino Filho, até hoje nos Cariocas, que gravaram a canção logo em 1963, mas depois de Pery Ribeiro, o primeiro a registrá-la, no mesmo ano.
Em seus shows, o quarteto continua apresentando a introdução que Tom e Vinicius criaram à época:
João: “Tom, e se você fizesse agora uma canção que possa nos dizer, contar o que é o amor?”
Tom: “Olha, Joãozinho, eu não saberia sem o Vinicius escrever a poesia.”
Vinicius: “Para esta canção se realizar, quem me dera o João para cantar!”
João: “Ah, mas quem sou eu? Melhor se cantássemos os três.”
Esse clima intimista seria trocado por uma onda planetária em 1964 — e já com atraso. Tom gravou uma versão instrumental de “Garota de Ipanema” em seu primeiro disco americano, The Composer of “Desafinado” Plays, de 1963. E em março desse ano, com Tom ao piano, João, sua mulher Astrud (desconhecida até então) e o saxofonista Stan Getz — que vendera 1 milhão de cópias do LP Jazz Samba (1962), só de músicas brasileiras, realizado com o guitarrista Charlie Byrd — fizeram para Getz/Gilberto um misto de “Garota de Ipanema” e “The Girl from Ipanema”, pois Astrud cantou a letra em inglês do versionista Norman Gimbel.
O produtor Creed Taylor, depois de ficar por muitos meses com os áudios na gaveta, resolveu cortar a voz de João da faixa e lançá-la com menos de três minutos de duração — a original tinha mais de cinco. João ficou uma fera, mas a música virou uma febre. O disco ganhou o Grammy em 1964, e “Garota de Ipanema” começou a ser gravada pelos principais cantores americanos. Até que, em 1967, chegou à voz do melhor, Frank Sinatra, que chamou Tom para fazer um disco inteiro com ele.
“Uma garota passando interessa às garotas que passam e aos homens que olham. É uma história antiga”, justifica e brinca o violonista Paulo Jobim, acrescentando que o pai gostava muito da composição e não se queixava de sua massificação.
“Garota de Ipanema” se tornou, como se diz, trilha de elevador, de dentista, usada em filmes muitas vezes com objetivo irônico, pois de tão tocada se tornou banal. Mas a sofisticação da criação de Tom é inegável.
“Foi a música perfeita no momento perfeito: a genialidade e a simplicidade elegante do Tom batendo em ouvidos ainda acostumados a sons mais sofisticados, como o cool jazz, que era a música jovem no mundo pré-rock”, opina Joyce Moreno, uma das que gravaram a canção. “A estrutura da música é no formato tradicional AA-B-A, ou seja, duas primeiras partes, uma segunda e a volta à primeira com outra letra. Simples assim. Ou não. O A é falsamente simplíssimo, o B é cheio de desenhos melódicos, mas o encaixe é perfeito. Só parece simples.”
“O Tom já era um compositor maduro e com uma bela bagagem”, destaca o violonista e arranjador Mario Adnet, com vários trabalhos baseados em Tom. “Imagino que a primeira parte tenha vindo fácil, como uma bênção, bem espontânea. Já a segunda [a B] deve ter dado um certo trabalho. É claro o uso de recursos teóricos de composição, modulando uma mesma frase duas vezes pra concluir a ideia e fazer com que também soasse redondo.”
De Stevie Wonder (no mais recente Rock in Rio) a Mike Tyson (no Caldeirão do Huck), de Amy Winehouse (em seu CD póstumo) a Xuxa (gravou este ano com Daniel Jobim, neto de Tom, ao piano), a “Garota” continua sendo cantada por todo o mundo.



E tudo começou com um marciano!!! 

(confira na próxima edição - dia 04/04)

 

 

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Renovação do Maravilhoso
Estilo romântico (à maneira de Franklin de Oliveira) – Millôr 1949

Chapeuzinho Vermelho segudo Millôr

Sentindo em seu sangue o tumultuar ardente dos ginetes impávidos de sua configuração cósmica, estrelas maduras de sua juventude, Chapeuzinho Vermelho tentava atravessar a Floresta agreste onde uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa, onde as árvores eram ao mesmo tempo como frutos de amor da terra pelo vento e pelo sol e uma obstinação da natureza contra o homem, quando viu surgir à sua frente a figura contrastante e terrificadora do Lobo Mau, que lhe perguntou aonde se dirigia.

-"Ah"- disse o Lobo - "que maravilha és e que maravilha que fosses minha namorada. Porque o maravilhoso, quando se encontra o Ser que se Ama, a Enamorada distante, é os dois ficarem calados, nada dizendo, ela sabendo que naquele silêncio está sendo mais amada que nunca, tornando-se mais linda em seu quieto silêncio."
E, assim, envolvida pelo som dessa voz, Chapeuzinho Vermelho prossegue seu caminho, chega à casa da sua avó e, na surpresa de encontrá-la acordada, pergunta por quê. Ah, o porquê da insônia. Neurastenia Noturna. Agonia do Cérebro. "Minha avó"- pergunta Chapeuzinho - "por que tens orelhas tão grandes?" "Ah, filha, isso é para ouvir o ouvido e o som do teu som. Quando tiveres ido há muito, inda te sentirei junto a mim." "Vó, e por que esses olhos tão grandes?" "Ah, filha, é para a contemplação da Beleza, a Beleza de todos os dias, a luz das estrelas que vivemos perdendo."
-"Vó, e para que esses dentes tão grandes?"- "Ah, filha, acredito no Amor, pássaros, ondas, céus, palavras claras e também confusas. Acredito que o amor é um manjar do céu, que a criatura amada é o único alimento do coração, e por isso tenho esses dentes tão grandes: porque és o meu amor."
Quando ele e ela se tornaram uma só pessoa, então a vida começou e não haverá mais Fim, pois não pode haver Fim quando duas pessoas estão juntas, uma dentro da outra.

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Algumas frases de Millôr:
"A verdadeira amizade é aquela que nos permite falar, ao amigo, de todos os seus defeitos e de todas as nossas qualidades".
"As pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades".
"Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem".
"Viver é desenhar sem borracha".
"Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim".
"Só louco rasga dinheiro? Bobagem. Nem louco rasga dinheiro. Experimente jogar uma nota de cinqüenta reais (ou mesmo de um!) num pátio de insanos. A briga vai ser feia".
"Um recém-nascido é a prova de que a natureza ainda não desistiu do ser humano. Já os pró-aborto. Já os pró- eutanásia".
"Dizendo que no ano 2000 todo mundo ia ter 15 minutos de fama, Andy Warhol conseguiu fama permanente".
"Claro, sabemos muito bem que VOCÊ, aí de cima, não tem mais como evitar o nascimento e a morte. Mas não pode, pelo menos, melhorar um pouco o intervalo?"
"De todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha do que a abstinência".
"O aumento da canalhice é o resultado da má distribuição de renda".
"Nunca tantos deveram tanto a tão pôrcos".
"Deixa, eu explico: decisões tomadas por falta da memória coletiva, elaboradas no ventre dos conchavos, paridas na hora do oportunismo".
"Bhundismo da semana: Menina, a caridade é mais importante do que a castidade. Dê para um desempregado".
"Fiquem tranqüilos os poderosos que têm medo de nós: nenhum humorista atira pra matar".

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Em nota, presidente destacou as qualidade do jornalista, escritor, cartunista e dramaturgo, que morreu na noite de terça-feira (27)"Nossa geração perdeu uma referência intelectual”, diz Dilma sobre Millôr


A presidente Dilma Rousseff lamentou nesta quarta-feira hoje (28) a morte de Millôr Fernandes. Em nota, Dilma destacou as múltiplas habilidades de Millôr e disse que, com a morte dele, o Brasil perde uma referência intelectual.
“Millôr Fernandes foi um gênio brasileiro, um ícone do humorismo. Brilhante jornalista, com a mesma maestria tornou-se escritor, cartunista e dramaturgo. Autodidata, traduziu para o português dezenas de obras teatrais clássicas. Atuou em diversos veículos de comunicação, além de ter sido fundador de publicações alternativas. Com sua morte, o Brasil e toda a nossa geração perdem uma referência intelectual”, disse Dilma em nota divulgada pelo Palácio do Planalto.
Depois de várias internações, Millôr Fernandes, de 88 anos, morreu na terça-feira (27) à noite na casa dele, no Rio de Janeiro, de falência múltipla dos órgãos e parada cardíaca. Nesta quinta-feira (29), a partir das 10h, o corpo será velado no Cemitério Memorial do Carmo, na zona portuária, e, em seguida, cremado.
Millôr escreveu o primeiro livro aos 10 anos e não parou mais. Trabalhou em jornais e revistas. Na revista O Cruzeiro, durante anos a principal do país, ele assinou a coluna Pif-Paf. Foi um dos fundadores do jornal O Pasquim, que se tornou emblema da crítica à ditadura militar (1964-1985). Millôr também traduziu obras clássicas de Sófocles, Shakespeare, Molière, Brecht e Tennessee Williams.


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Michelangelo Merisi da Caravaggio

Michelangelo Merisi da Caravaggio (Milão, 29 de Setembro de 1571 - Porto Ercole, comina de Monte Argentario, 18 de Julho de 1610) foi um pintor Italiano atuante em Roma, Nápoles, Malta e Sicília, entre 1593 e 1610. 
É Normalmente identificado como um artista Barroco, estilo do qual ele é o primeiro grande representante. Caravaggio era o nome da aldeia natal de sua família, que ele adotou como nome artístico.

Nascido no Ducado de Milão, onde seu pai, Fermo Merisi, era administrador e arquiteto-decorador do marquês de Caravaggio, Michelangelo Merisi surgiu na cena artística romana em 1600 e, desde então, nunca lhe faltaram comissões ou patronos.

Caravaggio tomava emprestada a imagem de pessoas comuns das ruas de Roma para retratar Maria e os apóstolos. Sua inspiração era entre comerciantes, prostitutas, marinheiros, todo o tipo de pessoas que não eram de nobre estirpe e que tivessem grande expressão, como suas obras retratam. Talvez tenha sido um dos primeiros artistas a saber conciliar a arte com o mitológico "ministério de Jesus", que, segundo a lenda, aconteceu exatamente entre pescadores, lavradores e prostitutas.
O artista levou este princípio estético às últimas consequências, a ponto de ter sido acusado de usar o corpo de uma prostituta fisgada morta do rio Tibre para pintar A Morte da Virgem. Esta foi uma das duas mais importantes características das suas pinturas: retratar o aspecto mundano dos eventos bíblicos, usando o povo comum das ruas de Roma.
A outra característica marcante foi a dimensão e impacto realista que ele deu aos seus quadros, ao usar um fundo sempre raso, obscuro, muitas vezes totalmente negro, e agrupar a cena em primeiro plano com focos intenso de luz sobre os detalhes, geralmente os rostos. Este uso de sombra e luz é marcante em seus quadros e atrai o observador para dentro da cena - como fica bem demonstrado em A Ceia em casa de Emmaus. Os efeitos de iluminação que Caravaggio criou receberam um nome específico: tenebrismo.

Caravaggio reagiu às convenções do maneirismo e opôs a elas uma pintura natural, direta, e até mesmo brutal, que por sua franqueza renovou a natureza morta (Cesta de frutas - 1596), e as cenas profanas (Baco, 1593-1594), bem como os temas religiosos (Descanso durante fuga para o Egito, 1594-1596). Os contrastes de forma e luz sublinham formas maciças que, na maior parte de suas obras, emergem vigorosamente de um fundo negro.
No fim do Renascimento, os grandes mestres caminhavam para uma visão mais obscura e realista das escrituras sagradas, como se vê principalmente em A Conversão de São Paulo e no Martírio de São Pedro - afrescos de Michelangelo Buonarroti, realizados na Cappella Paolina, no Palácio Vaticano. Caravaggio pintou versões próprias desses temas - A conversão de São Paulo, a caminho de Damasco e Crucificação de São Pedro - que ilustram bem como foi capaz de igualar, senão de superar seus mestres.

 

 

 

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Cândido - Jornal da Biblioteca Pública do Paraná

(entrevista com Marçal Aquino)

"O escritor, claro, vive todas as emoções, mas como trabalhamos com o plano das emoções, adoro a idéia de que posso mexer com a cabeça dos leitores. Quero que você fique peturbado, triste, alegre. Já ví gente contando a história de um livro meu que não era nada daquilo. Fazem leituras próprias, e aí, toda a leitura é válida. Ela é tão importante quanto a minha. A minha leitura é apenas uma. O autor não pode ser autoritário a ponto de achar a própria leitura a única possível. Isso é uma bobajada que se inventou numa certa época por aqui, em que se pergutava ao escritor qual era a mensagem de um livro. Como assi, que mensagem? Livro com mensagem é do Chico Xavier! Não tem que ter mensagem! Livro mexe com a sua cabeça ou não!  Mexe com a sua sensibilidade ou não! E assim por diante! O resto são invenções que as pessoas fazem para tornar complicado algo que é absolutamente simples. Quando você abre um livro, está em busca de um tipo de prazer que só a leitura pode dar. Nenhuma outra coisa é igual! Cinema, chocolate, nada é igual! O livro, até hoje, dá um tipo de gratificação que você não encontra em nenhum outro lugar!
(Marçal Aquino)



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Envelhecer é ficar invisível

Paulo Camargo

Quando somos crianças e adolescentes, a ideia da invisibilidade é fascinante. Digna dos super-heróis, é um atributo que pode ser muito útil em situações de alto risco, ou quando é preciso saber o que os arquivilões estão planejando para destruir o mundo. Mas quem já leu O Homem Invisível, clássico da ficção científica do escritor britânico H. G. Wells, relançado no Brasil pela editora Alfaguara, sabe que, mesmo no campo da fantasia, essa imaterialidade nem sempre é um superpoder ou uma benção.
Giffin, o protagonista do romance, publicado na Inglaterra sob a forma de folhetim em 1897, é um cientista jovem que, ao se tornar cobaia de seus experimentos, vivencia o inferno de se perceber incapaz de reverter o próprio feitiço. À medida em que se dá conta de que não conseguirá voltar a ser visto, sua sanidade se dilui, transformando-o de gênio em monstro.
No mundo real, até onde se sabe, ninguém chegou perto do feito de Giffin. Embora ficcional, é até convincente a ideia de que um corpo, se não absorve a luz, nem a reflete ou a refrata, não pode, portanto, ser visto. Mas isso é teoria, apenas colocada em prática na obra de Wells, um escritor exemplar da era das grandes invenções e experimentações tecnológicas, também autor de A Máquina do Tempo e A Guerra dos Mundos.
Fora das páginas do livro, no entanto, há outras formas de uma pessoa, metaforicamente, se tornar invisível. Uma delas pode ser, infelizmente, envelhecer.
Em culturas hedonistas e utilitárias, que privilegiam aparências e, de certa forma, deificam o jovem por sua capacidade, ainda que latente, de produzir e, bem ativa, de consumir, quem já viveu mais tende a valer, de certa forma, cada vez menos. Assim parecem pensar muitos desses Giffins contemporâneos que, ao tentar se mover na velocidade de luz e reinventar a roda, também flertam com a insanidade e muitas vezes atropelam quem atravessa seu caminho. E os mais velhos tendem a andar com mais lentidão.
É claro que experiência e conhecimento acumulados ainda são valorizados, por tornarem os passos mais firmes e certeiros, mas se percebe que, numa ânsia constante por renovação acelerada, que muitas vezes não permite a consolidação de conceitos mais elaborados, a percepção de quem já não guarda a perspectiva entusiasmada dos que acreditam ter toda a vida pela frente pode representar uma ameaça. Uma sombra capaz de frear essa entidade portadora de esperança, mas algo assustadora, que se tornou, em nossos tempos, a juventude, à qual quase tudo que é produzido parece ser destinado.
Envelhecer não é fácil. Quem disser o contrário está mentindo, se enganando ou dourando uma pílula com inúmeros efeitos colaterais. Há um determinado momento, que varia de pessoa para pessoa, também de circunstâncias sociais e geográficas, mas que chega para quase todos, em que que o processo de invisibilidade se inicia sem aviso prévio.
No início, e por um bom tempo, é algo sutil, e difícil de ser notado, salvo pela abrupta mudança na forma de tratamento – a primeira vez que alguém nos chama de senhor ou senhora é difícil de esquecer. Mas no país onde o imediatismo parece dar o tom, e a paciência nunca esteve entre os esportes nacionais, enxergar o mais velho, não necessariamente o idoso, como carta fora do jogo é uma constante. Justamente quando a pessoa pode ter mais a dizer, o mundo está menos disposto a ouvi-la. Cruel ironia.
A pressa é inerente ao jovem, e isso não é um problema em si. Mas, à medida em que todas as atenções – dos meios de comunicação, da indústria cultural e do proprio setor produtivo como um todo – se voltam a ele, todo o resto fica menos importante.
Cabe, assim, aos invisíveis (ou quase) enxergar uns aos outros e, sem revanchismo, ou rancor, confrontar essa ordem de coisas que os marginaliza e lhes priva de voz, poder e desejos. Ao contrário do experimento irreversível de Giffin, há um caminho de volta à visibilidade: ocupar, como tantos andam fazendo ao redor do mundo, o que lhes é de direito.
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Viva Elis é homenagem prestada pelos filhos


Elis e os filhos João Marcello Bôscoli, Pedro Mariano e Maria Rita (no colo), em 1979

 Em 19 de janeiro de 1992, quando se completavam dez anos do falecimento de Elis, reportagens sobre a efeméride lançavam a pergunta: como o Brasil pôde se esquecer tão rapidamente daquela que tantas vezes foi considerada sua maior cantora????
Duas décadas se passaram, e o quadro se reverteu. Ao lado de Gal Costa e Nara Leão, Elis é, de novo, a cantora que mais influencia novas gerações de vozes femininas.
Muito dessa volta se deve à aparição, há uma década, de Maria Rita. A filha apresentou a mãe à juventude que ainda não a conhecia.
“Não conheço outro caso assim: um gênio vocal gerar uma filha que seja reconhecidamente uma das cantoras mais importantes de sua geração”, diz João Marcello Bôscoli, irmão de Maria Rita. “Nenhum plano de marketing seria capaz de promovê-las de maneira tão intensa e verdadeira.”
E Maria Rita, agora, trabalha nessa promoção diretamente. Em 17 de março, data em que Elis completaria 67 anos de vida, a filha sobe ao palco do Auditório Ibirapuera, em São Paulo, para estrear temporada em que interpretará o repertório da mãe.
O show, que segue depois para Porto Alegre, Belo Horizonte, Rio e Recife, em datas ainda não confirmadas, faz parte do projeto Viva Elis, encabeçado por Bôscoli, que inclui ainda uma exposição itinerante.
A abertura está marcada para o dia 14 de abril, no Centro Cultural São Paulo, e vai reunir fotos da cantora, imagens de entrevistas, cenas de shows e especiais de tevê, ingressos e pôsteres, objetos pessoais, roupas, documentos e, é claro, sua música.
“A partir de nossa pesquisa de imagens, pretendemos lançar os especiais de tevê gravados em Portugal, Alemanha e França”, diz Bôscoli. O pesquisador Marcelo Fróes, responsável pelas edição, enumera mais possibilidades: “Já ouvi shows dela com a orquestra de Erlon Chaves, em 1970, e conheço pelo menos duas apresentações com Tom Jobim, em 1974, além de programas de rádio com o grupo de Luiz Loy, nos anos 1960”.
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Elis Regina Carvalho Costa nasceu em  Porto Alegre, no dia 17 de março de 1945.  No dia 19 de janeiro de 1982, em  São Paulo, nos deixou imersos nas saudades. Conhecida por sua presença de palco histriônica, bem como pela sua voz e sua personalidade, Elis Regina é considerada por muitos críticos, comentadores e outros músicos, como a melhor cantora brasileira de todos os tempos. Com os sucessos de Falso Brilhante e Transversal do Tempo, ela inovou os espetáculos musicais no país.  Era capaz de demonstrar emoções tão contrárias, como a melancolia e a felicidade, numa mesma apresentação ou numa mesma música.
      Como muitos outros artistas do Brasil, Regina surgiu dos festivais de música na década de 1960 e mostrava interesse em desenvolver seu talento através de apresentações dramáticas. Seu estilo era altamente influenciado pelos cantores do rádio, especialmente Ângela Maria, tornando-se grande revelação do festival da TV Excelsior em 1965, quando cantou "Arrastão" de Vinicius de Moraes e Edu Lobo. Tal feito lhe conferiu o título de primeira estrela da canção popular brasileira na era da TV. Enquanto outras cantoras contemporâneas como Maria Bethânia haviam se especializado e surgido em teatros, ela deu preferência aos rádios e televisões. Seus primeiros discos, iniciando com Viva a Brotolândia (1961), refletem o momento em que transferiu-se do Rio Grande do Sul ao Rio de Janeiro, que teve exigências de mercado e mídia. Transferindo-se para São Paulo em 1964, onde ficaria até sua morte, logrou sucesso com os espetáculos do Fino da Bossa e encontrou uma cidade efervescente, onde conseguiria realizar seus planos artísticos. Em 1967, casou-se com Ronaldo Bôscoli - diretor do Fino da Bossa. Desse matrimônio, nasceu João Marcelo Bôscoli.
     Elis Regina aventurou-se por muitos gêneros; da MPB - passando pela bossa nova, o samba, o rock ao jazz. Interpretando canções como "Madalena", "Como Nossos Pais", "O Bêbado e a Equilibrista", "Querelas do Brasil" - que ainda continuam famosas e memoráveis-, registrou momentos de felicidade, amor, tristeza, patriotismo e ditadura militar no país. Ao longo de toda sua carreira, cantou canções de músicos - até então pouco conhecidos -, como: Milton Nascimento, Ivan Lins, Renato Teixeira, Aldir Blanc e João Bosco, ajudando a lançá-los, bem como divulgar suas obras e, por fim, impulsionando-os no cenário musical brasileiro. Entre outras parcerias, é célebre os duetos que teve com Jair Rodrigues, Tom Jobim, Simonal, Rita Lee, Chico Buarque (que quase foi lançado por ela, não fosse Nara Leão ter o gravado antes)  e, por fim, seu segundo marido - o pianista César Camargo Mariano-, com quem teve os filhos Pedr Mariano e Maria Rita. Mariano também ajudou-a a arranjar muitas músicas antigas e dar novas roupagens a elas, como com "É Com Esse Que Eu Vou".
     Na próxima postagem, conversaremos sobre a homenagem prestada pelos seus filhos.
     Gente Boa,..., Até a próxima!
     Bjs e Abraços nos vossos Corações!
     Gui Vogel - Curitiba, 19 de janeiro de 2012


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Gui Vogel
Curitiba, 03 de Janeiro de 2012.


        Amigos,..., Gente Boa!!!
        Assim que eu tive a felicidade de contemplar a frase que cito em seguida, pensei - de imediato -, trazer a vocês minhas divagações sobre o assunto exposto pelas palavras ojetivas e sábias do autor, cujo nome infelizmente não recordo (uma pena mesmo!!!). 
                                                                                Adelante!!!!!!


      "Para fazer qualquer coisa com arte é preciso adquirir técnica. Sim!!! Mas, a verdade é que criamos por meio da nossa técnica - e, não-, com ela!!!!"


        Ao parar para refletir sobre tal afirmação (dita através de palavras objetivas e sábias), de imediato concluímos que poucos são os verdadeiros Artistas!
       E, faço questão de mencionar a palavra Artista com "A" "MAIÚSCULO". Ou seja, trata-se de um substantivo,..., de um nome próprio, dotado de todos os infindos valores inerentes ao mesmo!
       Pensando bem, o que mais existe nesse mundo afora são "arteiros". Isto é, indivíduos que - dotados de certa técnica -, juram expressar-se adequadamente. No entanto, são idôneos "analfabetos" no que diz respeito ao "vocabulário Artístico"!
       Deixo a qui a pergunta:
       O que é Arte??
       E,..., uma outra:
       O que é expressão Artística??
       No presente, limitarei minhas divagações à uma assertiva apenas:
       Excesso de virtuosismo - ou seja, tão e somente a técnica -, na minha opnião nunca será Arte!!!!
       Na música e na pintura, por exemplo, isso será revelado como um barulho e um borrão, respectivamente.
      A Arte - como substantivo -, antes de qualquer coisa deve expressar o que o Coração e a Alma sentem. Assim sendo, o Artista deverá ser - frente à qualquer objetivo que o anteceda-, um indivíduo de extrema sensibilidade perante o mundo e tudo que o cerca. Portanto, deverá ser um fiel observador, contemplador, amante, degustador da Vida. Deverá apresentar boas doses de eloquencia, entusiasmo e - como afirmou Erasmo de Rotterdam no seu magnífico livro intitulado "Elgio da loucura" -, é necessário que tenha a "boa loucura".
      Por isso encerro minhas palavras afirmando que são poucos os Artistas Verdadeiros.

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FRANZ LISZT 
Algumas Curiosidades Biográficas

Fruto do matrimônio de Adam Liszt e Anna Lager, na noite de 21 para 22 de outubro de 1811 - em Raiding, Hungria -, nasceu o primeiro e único filho do casal: Ferenc (ou Franz) Liszt. 
Muito sensível, já aos seis anos, Liszt era capaz de reproduzir com perfeição os temas que ouvia seu pai tocar ao piano. Tal proeza levou-o a fazer do filho um pianista, encarregando-se - ele próprio -, de dar-lhe aulas. O aprendizado do pequeno Franz foi surpreendente!
Aos oito anos começou a compor e, aos nove, se apresentou pela primeira vez em uma cidade vizinha, executando um concerto de Ries. Após este sucesso, surgiram novas oportunidades em outras cidades. Assim, Franz Liszt iniciara sua carreira de pianista.       
Encantados com a criança prodígio, nobres húngaros lhe ofereceram uma bolsa de estudos, que permitiu à Liszt realizar estudos completos. Com isso, a família mudou-se para Viena, onde o menino pôde aperfeiçoar-se em piano com Czerny - e. em composição -, com Salieri.
Em 1822, apresentou-se pela primeira vez ao público vienense, levando a platéia ao delírio com seu virtuosismo. Sucesso absoluto de público e de crítica: Liszt, aos doze anos, já era um ídolo.
Em 1823 partiu para uma longa série de concertos pela Alemanha e França, quando, no ano de 1824, estreou em Paris - obtendo, como sempre -, sucesso estrondoso. No entanto, por ser estrangeiro teve seu ingresso recusado no Conservatório de Paris. Com isso, recebeu aulas particulares de composição dos mestres Anton Reicha e Ferdinando Paer. Não obstante, o famoso construtor de pianos Sebastien Érard contratou-o para divulgar os novos modelos dos seus instrumentos.
As viagens prosseguiam quase sempre sem interrupção, sendo sempre aclamado pelo público. Exausto, em 1827, sofreu uma depressão nervosa e passou pôr uma crise de misticismo - que o levaria, anos mais tarde -, a entrar para a Ordem dos Franciscanos, como abade. Com a morte de seu pai nesse mesmo ano, somado à necessidade de assumir os encargos de chefe de família, Liszt volta à “realidade”, passando, então, a lecionar música para as damas da alta aristocracia parisiense.
Aos dezessete anos, o compositor romântico apaixona-se pôr uma de suas jovens alunas - Caroline de Saint-Cricq. Apesar de se amarem, seu pai - o ministro do Rei Carlos X -, tinha projetos de casamento muito mais ambiciosos para ela. Deflagra-se ali, a primeira dor pelo seu fracasso amoroso. Melancólico e deprimido, o compositor adoeceu e entrou em nova crise de misticismo, ao mesmo tempo em que se voltou freneticamente para a leitura de Dante, Voltaire, Vitor Hugo e outros clássicos.
Ao afastar-se desse estado místico, o músico passou a se envolver na agitação política que ocorria na França - participando de reuniões intelectuais, interessando-se pôr uma sociedade igualitária, na qual o músico e o artista em geral teriam posição de destaque.
Em 1833 conheceu a condessa Marie d’Agould, que exerceria papel importante em sua vida. Com vinte e oito anos de idade (seis anos a mais que ele), culta, bela, independente e rica, tal era Marie quando Liszt a conheceu. Ele, um virtuose consagrado - também culto -, uma personalidade atraente. E, dessa atração, surge o abandono que Marie cometera, deixando o marido e seus três filhos, para viver uma relação de amante com Liszt na Suíça.
 Afastado temporariamente da carreira de concertista, vivendo tranqüilamente na Suíça ao lado de Marie, Liszt dedicou-se inteiramente à composição. Neste período dedicou-se também à divulgação de obras de outros compositores. Aqui reside um dos grandes méritos de Liszt :admirar o gênio no outro e trabalhar pelo seu reconhecimento pôr parte do público. Trabalhou no Conservatório de Genebra.
 De sua união com Marie nasceram os três filhos de Liszt: Daniel, Blandine e Cosima - que se casaria com o regente Von Bülow, abandonando-o depois, para viver com Wagner. Logo após o nascimento do último filho, as relações entre o casal começaram a se deteriorar e o rompimento tornou-se inevitável, efetivando-se no final de 1839. Marie regressou com os filhos para Paris e Liszt voltou à vida errante de concertista. Nos oito anos seguintes, deu recitais e concertos em toda a Europa. Estava no auge da fama, sendo considerado o mais brilhante virtuose do momento. Entrava triunfalmente em cada cidade pôr onde passou, sentado em sua carruagem atrelada a seis cavalos brancos. Era o convidado de honra da alta aristocracia parisiense, que o solicitava como recitalista e professor de piano. Desta forma colocou o músico numa posição de destaque dentro da hierarquia social - uma de suas metas como homem e artista.
Em 1834, impelido pôr seus ideais, Liszt fundou - juntamente com Chopin e Berlioz -, a Gazeta Musical de Paris. Esse órgão de imprensa destinava-se a defender os direitos do artista e esclarecer a opinião pública sobre a função da arte na sociedade.
Célebre, festejado, admirado, ganhava fortunas. Cortejado pelas mais belas mulheres da Europa, teve inúmeros casos amorosos. A presença feminina, aliás, foi uma constância na vida do compositor. E o "Don Juan da Música", tendo reconquistado a liberdade, entregou-se às ardentes aventuras amorosas.Mas não era feliz. A glória não o satisfazia - e, desorientado e solitário -, sentia a necessidade de uma relação amorosa sólida e estável. O equilíbrio só foi encontrado em 1847, aos 36 anos, quando conheceu a princesa polonesa Carolyne Sayn-Wittgenstein, seu último grande amor.
Casada, mas vivendo separada do marido, Carolyne - aos 28 anos -, era culta e tinha a personalidade forte e independente. Embora não fosse bela, Liszt sentiu-se totalmente seduzido por sua figura de mulher aristocrática, inteligente e de grande vitalidade, com a qual partilhava suas idéias - tanto no plano religioso, como no intelectual e artístico. Ao seu lado, Liszt viveu o período mais fértil como compositor.
Em 1848, Liszt transferiu-se para Weimar, onde exerceria as funções de mestre-de-capela e regente da corte. Vivendo no castelo da princesa Carolyne - que aguardava a anulação de seu casamento -, dividia seu tempo entre leitura, regência e composição. Transformaria esta cidade num dos principais centros musicais da Europa. Ali desenvolveu intensa atividade pela divulgação das obras de seus contemporâneos. Foi durante este período em Weimar, que travou conhecimento com Richard Wagner - estabelecendo-se entre os dois-, uma sólida amizade. Foi graças a Liszt que Wagner teve suas primeiras óperas encenadas.
No plano doméstico, Liszt viu frustrada a sua tentativa de casamento com Carolyne, pois esta não conseguiu obter do Vaticano a anulação de seu casamento. E quando, em 1864, a princesa tornou-se viúva, ambos já haviam renunciado ao projeto de casamento.
Em 1865, Liszt finalmente entra para a Ordem dos Franciscanos, em Roma. Mas suas ordens menores não o impedem de levar a vida de sempre: compor, lecionar, tocar e reger, além de despertar paixões em corações femininos. Paris e Londres são as últimas cidades a aplaudi-lo.
Mas, estas viagens cansam-no bastante. Já debilitado, contrariando as ordens de seu médico, vai a Bayreuth - em julho de 1886-, para assistir à apresentação da ópera Tristão e Isolda de seu amigo Wagner, e presencia o triunfo do compositor. O esforço da viagem causa-lhe profundo esgotamento físico.
 No dia  31 de julho, do ano de 1886, a poucos dias de completar 75 anos - já atacado pela pneumonia -, Liszt entra em crise aguda de delírio e expira.
 Morre como viveu: voltado para a arte!
 Antes de dar o último suspiro, balbucia o nome Tristão - uma das maiores criações do gênero humano.


(Amigos leitores!! Na próxima edição postarei informações sobre as Obras de Liszt.)


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De "Corpo e Alma"
A Expressão e Evasão como Regentes das Interpretações Pianísticas


“A música deve elevar a alma acima de si própria, deve induzi-la a libertar-se por cima do seu objeto e a criar uma região na qual - livre de qualquer afã-, possa refugiar-se sem obstáculos no puro sentimento de si mesma. Já não se trata do desenvolvimento de um sentimento particular - do amor, do desejo, do gozo-,..., é a interioridade da alma que domina tudo, que se apazigua tanto na sua dor como na sua alegria,..., e que goza de si mesma.”
(autor não identificado)



       Muito boa a apresentação do Perahia, mal ficou a caspa em cima da sua casaca! rsrs. Realmente ele está entre os pianistas "top 10" em atividade, os quais, na minha opinião sào os seguintes, sem considerar a ordem de importância, mas apenas o grupo (opinião pessoal): Evgeny Kissin; Nelson Freire; Martha Argerich; Daniel Barenboim; Lang Lang; Leif Ove Andsnes; Maurizio Pollini; Vladmir Askhenazy; M. Perahia; Ivo Pogorelich. Puxa vida, pode pelo menos mais 1? Daí colocaria o Kristian Zimermman!
Mas, a interpretação do Barenboim para mim é paradigmática. Penso que o maestro hoje é a maior autoridade em conhecimento e interpretação da obra de Beethoven. Sei lá, além do estudo profundo da obra do compositor alemão,  acho que ele coloca um pouco do sangue argentino na execução, sabe... como os dribles do Messi jogando futebol, ou como a paixão não correspondida do tango,  embutida de forma muito sutil, por exemplo, naqueles dois últimos acordes daqueles arpejos iniciais e insanos do 3o. movimento.
       Barenboim , como que numa alquimia perfeita, mistura: técnica - controle - equilíbrio -emoção. Sem deturpar a identidade da obra clássica, na minha opiniãom en algumas passagens dá certos ares de romantismo, acho que, em alguns momentos,  dá aquele efeito difícil de conseguir no piano, traduzido na célebre e famosa frase da pianista e professora Magda Tagilaferro: "tocar lento sem ser devagar"! Coisa para poucos!
        Para finalizar,..., deixo aquio link de um vídeo que o amigo e pianista Álvaro Siviero me mandou - lá de Nápoles -, onde se encontra atualmente em razão de recital que está fazendo por lá.
Achei muito interessante o swing de jazz na cadência da Rapsódia Húngara n. 2. Esse cara ganhou recentemente, segundo informação do Álvaro, a famosa e dificílima competição internacional de Piano Tchaikowski. O cara é russo, mas tem jeito para o Jazz!


Um abraço.
(Alex Hungria)


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Palavras de um amigo pianista e entusiasta

Caros amigos
O que é preciso para conhecer música clássica?
Começar!!!
A porta de entrada é tão vasta que ninguém precisa ser erudito para ouvir compositores eruditos.
A música clássica é, no domínio dos sons, o que é a literatura no domínio das palavras.
O ouvinte "lê" com os ouvidos e, naturalmente, não necessita ser alfabetizado em música. Basta ouvir com interesse, sem preconceitos e enriquecer-se. Sejam muito bem-vindos!
                                                  Alvaro Siviero
                                         http://www.alvarosiviero.com/

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Art is enough for lifetime, but the lifetime is not enough for Art!

 O ilustre pianista e compositor romântico Rachmaninoff (1873-1943) certa vez afirmara conscientemente: 
- Music is enough for lifetime, but the lifetime is not enough for music! (a música é o bastante para a vida, mas a vida não o é para a música).
Que eloquente estado d'Alma o mesmo encontrava-se para elaborar uma das mais idôneas descrições da música e,..., do seu significado.
O que podemos falar desta modalidade artística, senão, algo que nos torne incapacitados para descrever e justificar tamanho encanto,..., e que nos destitua de todas e quaisquer palavras para esclarecer qualquer efeito resultante do produto elaborado por complexos e requintados recursos harmônicos.
Durante alguns minutos da boa prosa na companhia de Sara Guernieri - grande amiga e ilustre personalidade das artes plásticas - tentávamos encontrar uma forma de expor o fascínio que sentíamos diante do efeito que a Arte nos proporciona. Foi quando ela citou uma passagem jamais esquecida, ressaltando a música como a modalidade artística que maiores conseqüências poderia trazer à alma, à mente e ao corpo. Realmente, tal como fora dito, a boa música tem o peculiar potencial de permear todo o Ser que se prostra diante dela, isto é, não só a matéria física, mas - acima de tudo-, a sua Alma.

                                                           
(Gui Vogel)


Palavras de Confúcio (551 - 479 aC)

           Se alguém deseja saber se um reino é bem o mal governado, se sua moral e boa ou má, examine a qualidade de sua música e logo lhe será fornecida uma resposta.

(fonte não identificada)


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